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Aconcágua, de corpo e alma
Publicado em 21.Feb.2013

Superação. Receio. Resiliência. Respeito. Alívio. Satisfação. Angústia.

No Aconcágua vivi uma das mais intensas aventuras da minha vida.

Por Carlos Sá

Parti com um objetivo, a superação pessoal. Mas não esperava que esta fosse tão extrema, quer em termos desportivos quer, sobretudo, em termos humanos. Foi uma fantástica experiência de vida.
A possibilidade de recorde era mais uma motivação, mas não era de todo a razão de estar ali. Para mim, conhecer novos locais, fazer novos amigos e viver uma experiência do outro mundo sobrepunha-se a todos os objetivos desportivos.
Uma vez na Argentina tive a sorte de encontrar gente fantástica, como os amigos da Andes Trail, os Guarda Parque, os Militares, a Polícia de Resgate e todos aqueles que por ali andavam, pelo Parque.
No dia da entrada no Parque recebi logo uma má notícia, a morte de dois alpinistas americanos, por desgaste. Não me desmotivou. É o risco, e ele, ali na montanha, está bem patente.
Sentia-me motivado e muito forte. Por questões monetárias, eu e o meu amigo e treinador, Paulo Pires, contratámos somente seis refeições no campo base. As restantes foram cozinhadas por nós.
Fiz somente um campo intermédio, em Nido de Condores, aos 5500 metros de altitude.
Tive de carregar a alimentação e toda a logística para altitude. Dormia numa tenda exígua, com espaço apenas para mim e para a mochila. Durante todo o tempo que estive nesta montanha, não tomei qualquer banho. Alimentei-me apenas de massa, atum, cavala, frutos secos, bolachas, chá, leite em pó e barras. Enfim, sofri um brutal desgaste diário. A cada dia que passava acima dos 4500 metros sentia-me cada vez mais fraco.
Queria fazer este projeto como sempre faço, de forma alpina. Sem carregadores e sem qualquer outro suporte. Em todas as tentativas que fiz para alcançar o cume do Aconcágua, tive acesso apenas a chá e algumas tostas, em Plaza de Mulas e em Nido. Tudo o resto carreguei às costas, eu próprio, desde a entrada do Parque. Acredito que desta forma não se desvirtua o espírito do Alpinismo.
Fiz a aclimatação, trekking e cume como todos os montanheiros. Aliás, arrisco-me a dizer como dez por cento dos montanheiros. Porque os restantes 90 por cento fazem esta montanha com carregadores e recorrem a empresas que lhes dão todo o suporte necessário.
Eu queria testar os meus limites. Saber se era capaz de subir e descer esta grande montanha numa etapa só. O recorde, esse era somente uma motivação adicional. Não estava obcecado por ele, nem sequer sabia se teria a oportunidade de o tentar alcançar.
Antes de partir conhecia apenas os tempos do recorde do Jorge Egocheaga, 14 horas e cinco minutos; e do Holmes Bayona, 20 horas e 30 minutos. Sabia também que o grande Fernando Hernando não tinha conseguido fazer cume no ano passado. A restante informação iria encontrar lá, no Parque Provincial Aconcágua.

Sem apoios mas convicto
A 30 de dezembro, o dia de entrada no Parque, o chefe dos guardas estava ocupado com um resgate e por isso decidi subir. Deixei o pedido para fazer o controle de tempo para o dia anterior à tentativa, quando descesse da montanha. Nos acampamentos acima, a notícia de que um português queria fazer cume em 14 horas correu depressa. Tornou-se um tema constante. Soube por guias e pela Polícia de Montanha que todos os anos havia atletas e montanheiros a tentar o mesmo que eu.
Diziam-me que, além do tempo do Jorge e do Holmes, havia um argentino que o tinha feito em menos de 15 horas e um outro peruano com 17 horas. Falavam-me de italianos, argentinos e também de gente de outras nacionalidades que chegava com grandes equipas que carregavam tudo para o atleta. Levavam enormes tendas, massagistas. Marcavam o trilho com bandeiras para serem mais rápidos. Desciam de helicóptero para não se desgastarem.
Eu não tinha apoios para isto. E nada disto entrava na minha filosofia de fazer as coisas. Disse a todos que queria apenas tentar. Não estava ali para bater recordes a todo o custo. Mas com os treinos que estava a fazer, e pelos tempos de passagem do Jorge, estava convicto de que se tudo me corresse bem iria fazer um tempo na casa das 13 horas. Só não sabia como se adaptaria o meu corpo acima dos 6500 metros de altitude. Essa era a dúvida.
Fiz cume a 9 de janeiro para reconhecer o percurso e perceber como me adaptava à altitude. Não calquei qualquer neve. Estava um dia ótimo e por isso desci do cume até Mulas em menos de hora e meia. Esta subida deu-me ainda mais confiança. Vimos a meteorologia na tenda do Tato e percebemos que o dia 13 seria o único disponível para subir novamente. Tinha de regressar a Portugal a 17 de janeiro.

A correr da entrada do Parque
Reservámos então o dia 13 para a tentativa. Desci a 11 e falei com o chefe do Parque para fazer o favor de me controlar o tempo. Falei-lhe da aventura do Jorge, que pelos vídeos parecia ter partido da Ponte de Horcones. Era também esse o meu objetivo. E o seu tempo era a referência. O chefe dos Guardas informou-me que não o faria. Que os recordes registados são feitos dali da entrada do Parque Provincial Aconcágua e não da Ponte. E que se queria fazê-lo da Ponte, como muitos outros, para o fazer sem qualquer problema, mas que esse não seria oficial.
Disse-lhe que me parecia ter visto guardas no vídeo do Jorge, mas como eu estava sozinho não tinha como controlar o tempo. Queria fazer as coisas de uma forma honesta. O guarda Luís insistiu, e até lhe dei razão. Porquê da Ponte? No total acrescem mais seis quilómetros. Não há problema, assumi. Parto a correr daqui, da entrada do Parque! Estava seguro que, mesmo assim, correria abaixo do tempo do Jorge. Isto com todo o respeito que tenho pelo seu feito, e sobretudo pela causa que o levou a fazê-lo. Não conheço o Jorge Egocheaga, mas acredito que será um grande homem.
No dia 13 de janeiro, às seis horas locais dei início à tentativa. O guarda informou-me que teria 30 centímetros de neve em Nido, e que a meteorologia estava algo instável. Fiquei apreensivo mas estava confiante. Cheguei a Plaza de Mulas com três horas e 24 minutos. Toda a parede estava nevada. Foi uma vista radical do Aconcágua!
Em Canada havia muita neve. Cheguei a Nido com cinco horas e dez minutos. Percebi ali que teria de ser muito forte para conseguir chegar ao cume. Depois de beber um chá na tenda da Polícia, e, como vinha muito bem e sem qualquer desgaste, aceitei a sugestão de subir pelo Grande Carrero. É uma rampa com pouco mais de dois quilómetros e uns mil metros verticais. Ir pela via normal seria complicado. O tempo estava a fechar e a orientação seria muito difícil. Com aquele nevão não havia trilho definido e iria, certamente, enterrar-me na neve.

Estrondos como avalanchas
Comecei a subir. Continuava a nevar. Forte. Comecei a ouvir estrondos tão grandes que pensei tratar-se de avalanchas na parede sul. Era, afinal, trovoada. À medida que a rampa inclinava, dava um passo para cima e dois para trás. A neve não estava compacta. Com a cascalheira por baixo era impossível progredir. Deixei de sentir os pés. As sapatilhas em gore-tex, para correr em gelo, não suportaram toda aquela humidade. Não conseguia progredir. Gelei por completo.
Já em 2005, no Peru, tinha tido congelações nos dedos dos pés, e a sensação que ali estava a ter era idêntica. Ao fim de quase três horas, e já na Travessera sentia-me completamente exausto. Decidi voltar para trás. A montanha iria ali continuar por muitos e muitos anos. Não faltariam oportunidades.
Recebi a assistência da Polícia. Estavam mais surpreendidos do que eu com a mudança da meteorologia. O dia de sol previsto, vaporizara-se.
Comentei, em jeito de brincadeira, que só iria para casa no dia 17. Ainda me poderiam ver a passar por ali a correr. Sabia que seria impossível, quase…
Cheguei a Mulas debaixo de um grande nevão. No dia seguinte fomos consultar a meteorologia. Continuaria a nevar durante mais dois dias, mas haveria uma melhoria a 16. Comentei com o Paulo Pires: “Perfeito! Tento a 16. É o meu último dia aqui no Parque. Portanto, quero tentar chegar lá a cima, seja em que tempo for!”
Desci a Penitentes. Os guardas do Parque não queriam acreditar que iria tentar novamente, três dias apenas depois e naquelas condições. Já tinha feito cume seis dias antes, mas fazer todo este trajeto seguido era algo muito, mas muito diferente. Queria experimentar. Saber se era capaz.
Na descida tive de fazer tudo a caminhar até Ponte del Inca para arranjar boleia, sempre debaixo de um imenso temporal. Estava esgotado e tinha apenas um dia para descansar antes da derradeira tentativa.

A derradeira oportunidade…
A 16 de janeiro, uma quarta-feira, dei início à aventura. Decidi sair às cinco horas da manhã, para encontrar neve mais rígida. Para o cume do Aconcágua, as previsões apresentavam 40 km/h de vento e 20 graus negativos.
Mal iniciei a subida comecei a sentir picadas nos gémeos. Era o desgaste acumulado a manifestar-se. Julguei que não chegaria a Mulas, mas fui controlando.
Alcancei Mulas com três minutos de diferença em relação à primeira tentativa. Na subida para Nido imprimi um ritmo forte, chegando lá com dez minutos de atraso em relação ao objetivo. Como não estava a pensar em recordes, mas somente em tentar fazer, estive ali mais de 40 minutos a descansar e a trocar todo o equipamento de corrida pelo de alpinismo. Saí com botas e crampons. Afundava-me a cada passada. Depois de Berlim, a progressão dava-se de forma muito lenta. Sentia falta de força, mas lá me ia arrastando montanha acima. Não passei por ninguém e cheguei à Cueva em nove horas. Sentei-me por ali durante uns 20 minutos.
O mal de altitude começava a manifestar-se, intensamente. Daí para cima fazia pausas a cada 20 passos. Sentia falta de controlo e força, mas estava lúcido. Tinha uma ampola de dextametasona, que injetaria em caso de emergência, aliviando-me os sintomas, para me permitir descer pelos meus próprios meios. Sim, no limite injetar-me-ia.
Demorei quase hora e meia a chegar ao cume e por lá fiquei 20 minutos a descansar, a desfrutar da montanha. O início da descida estava excessivamente perigoso. Demorei três horas até Nido, mais duas horas do que da primeira vez que fiz cume.
Com toda aquela neve fofa era como andar em terreno minado. A cada passada, o desconhecido. Sofri algumas quedas, sem grandes consequências.
Cheguei a Nido exausto. Troquei o material, agora o de alpinismo pelo de corrida. Recuperei muito bem do mal de altitude. Ao fim de 15 minutos parti a correr. Não tinha coordenação e eram muitas as dúvidas de que chegaria a Horcones. Mas comecei a reagir à medida que ia descendo. Sentia-me uma bala humana, montanha abaixo. Creio que levei menos de 30 minutos até Mulas. Só não tenho a certeza porque entretanto parei o cronómetro sem dar por isso. Quando cheguei a Mulas encontrei uma claque a apoiar-me. Carreguei o Camelbak e despedi-me de toda aquela gente fantástica. Creio que estive por ali mais de 20 minutos. Todos me mandavam correr, mas eu dizia que não tinha pressa, só queria mesmo chegar lá abaixo.
Saí determinado a chegar a Horcones. À medida que ia baixando sentia-me cada vez mais forte. Tive de correr dentro de um rio, porque, com o degelo de toda aquela neve, todo o vale era rio. Não tinha qualquer alternativa. Mesmo assim consegui demorar apenas cerca de duas horas e meia a chegar a Mulas. Não sabia o tempo exato que levava, nem tão pouco me interessava. As emoções eram muitas, inspiradoras.

…e os parabéns dos guardas
Quando atingi Horcones lá estava o chefe dos guardas, acompanhado pelos militares. Todos me deram os parabéns. Consegui subir ao cume e consegui descer. Nada mais me importava.
Acompanhei o chefe dos guardas, e a seu pedido assinei uma ata. Mostrei a prova exigida de que estivera no cume. Levava comigo um pin do Parque e fiz um vídeo no cume com ele. Só aí quis saber qual era o recorde oficial e em que posição ficaria o meu. Disse-me o chefe que o meu era o novo recorde e que o anterior era do Holmes. Fiquei admirado e questionei-o sobre outros tempos inferiores dos quais a Polícia me havia falado. O Chefe dos guardas do Parque informou-me que nenhum desses tinha partido dali, nem solicitado que lhes controlassem o tempo. E muito menos haviam provado terem atingido o cume.

Próximo objetivo: Cho Oyo
Sei que esta questão é controversa, mas acho que daqui para a frente todos os que queiram realmente alcançar um recorde de velocidade de ascensão e descida do Aconcágua devem seguir as instruções do Parque, a bem de todos. Para mim não há qualquer dúvida de que o Jorge Egocheaga tem o tempo mais rápido, mas também não tenho qualquer dúvida que, não estando esse recorde registado, o melhor tempo oficial, segundo os Guardas do Parque, seja o meu.
Parti do Aconcágua defraudado com o tempo, com as condições meteorológicas que me fizeram frente. Sei que sou capaz de fazer mais. Voltarei a tentar? Sim, para me superar. A mim. Mais rápido.
Foi grande o que atingi nestas condições. Em apenas seis dias rasei o cume do Aconcágua três vezes e desci por duas aos 2700 metros. Isto sem qualquer suporte. Foi brutal!
Quero continuar a cumprir projetos destes, e a fazer mais. Vou lutar por apoios. Se os tiver, o Cho Oyo, a montanha que me trouxe para o Trail Running, será o próximo objetivo. Tenho adiado este sonho desde 2006 por questões financeiras. Foi numa expedição marcada para essa montanha que, há sete anos, senti que tinha de treinar cada vez mais. Foi nessa montanha que me apaixonei por este desporto extremo, e, assim, de corpo e alma me dediquei ao Trail.

Último comentário
Didier Valente
23.02.2013
Relato espectacular. Bastante inspirador para quem ainda só agora se iniciou no Ultra Trail... o Ca...
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3 comentários
  • Luis Madeira 22 de February 2013 às 9:11 am

    Foi o melhor artigo que já li dele. Tem muitos detalhes importantes e que mostram a força de Carlos Sá.

  • Bruno Melo 22 de February 2013 às 11:03 am

    …Carlos, és Grande, és inspiração para todos os aspirantes à modalidade, incluindo eu!
    Sinto um pouco de vergonha deste país não apostar mais em atletas como o Carlos, e nestas modalidades e é muito bom saber que Portugal não é só futebol. 🙂

    Grande abraço, boa sorte para ti e ao Grande Trail Serra D’Arga 2013!

  • Didier Valente 23 de February 2013 às 12:35 am

    Relato espectacular.
    Bastante inspirador para quem ainda só agora se iniciou no Ultra Trail…
    o Carlos Sá é sem dúvida uma grande referência a niver nacional e internacional!!!