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José Guimarães: “Correr mudou a minha vida”
Publicado em 30.Oct.2014
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Há uns anos era um sedentário puro, daqueles que passava o tempo sentado ao computador e desdenhava quem corria na rua sem qualquer destino em mente. Hoje ele é um desses.

Foto: Pedro Rocha / Global Imagens

Foto: Pedro Rocha / Global Imagens

É de manhã cedo, bem cedo, que José Guimarães começa o dia, quando ainda boa parte do país está a dormir. Não é o trabalho que assim o exige, nem qualquer compromisso pessoal. Ele salta da cama todas as madrugadas para correr e quando não o faz já sabe que o dia não vai correr bem. “Os dias em que não faço desporto – que são muito poucos – são dias em que fico mole e sem energia. Normalmente corro às 6h da manhã e às 7h30 já estou despachado. Quando chego ao trabalho, às 9h, já estou com uma carga de energia grande e consigo enfrentar o dia de uma forma diferente, mais ativa. Já não consigo pensar em fazer as coisas de outra forma.”
Já não consegue, mas há três anos correr era a última coisa que surgia no pensamento de José Guimarães, profissional de marketing de 39 anos. Em 2011 a corrida era vista quase com desdém. “Eles correm para quê?”, pensava quando passava por alguém que corria. O desporto praticamente não existia no seu dia a dia e nem as tradicionais futeboladas com os amigos o cativavam. A vida levaria-o a calçar os ténis no início desse ano. Desempregado e de luto, pela morte da mãe, viu-se com bastante tempo nas mãos, quase sem saber o que lhe fazer. A viver em Carcavelos, à beira do Oceano, teve um dia a ideia de calçar uns ténis que ocupavam espaço num armário e saiu para correr junto à praia. Dois quilómetros depois estava exausto. Exausto, mas entusiasmado. No dia seguinte voltou.

De Sedentário a Maratonista
Por coincidência, ou talvez não, José participou por essa altura num evento de coaching e motivação pessoal. Um dos intervenientes falou de algo que o interessou, de uma maratona que tinha feito no Porto. Que tinha sido difícil, muito doloroso e penso, mas fantástico por todas as dificuldades que tinha superado para chegar ao fim dos 42 quilómetros. “Decidi de imediato: fazer uma maratona era o meu objetivo. Meti isso na cabeça quando corria apenas há algumas semanas. Comprei um plano de treinos na internet e cumpri-o religiosamente. Em outubro desse ano estava a fazer a minha primeira maratona em Munique, na Alemanha. Aproveitei para fazer turismo e desporto numa só viagem e fazer uma maratona no estrangeiro, e logo a minha primeira, foi fantástico. Fiz o percurso em 3h38m e fiquei muito satisfeito. No dia seguinte não fiz turismo, claro, nem conseguia subir escadas. Mas foi uma realização pessoal muito grande, tinham sido meses de muito trabalho e superação e esse paralelismo com a vida real cativou-me. Na altura continuava desempregado e tinha de enfrentar dificuldades.”
No meio de toda a preparação para Munique, José tomou uma decisão tão natural como qualquer outra, mas que se revelou decisiva para tudo o que veio a seguir. Criou um blogue. “Queria partilhar tudo o que estava a viver, as coisas boas, as coisas más, dicas que ia encontrando na internet, sobre treino, alimentação, tudo.” Com 73 quilos, cerca de quinze a menos do que tinha quando começou a treinar, escolheu um nome que se adequava perfeitamente ao que estava a viver. “De Sedentário a Maratonista, www.desedentarioamaratonista.com. Pareceu-me a escolha mais óbvia e natural. Passava cerca de 12 horas sentado a um computador e de repente estava a correr para me tornar um maratonista, que era o meu objetivo.”

Foto: Pedro Rocha / Global Imagens

Foto: Pedro Rocha / Global Imagens

Cumprido o objetivo da maratona, José Guimarães não parou, mas mudou um bocadinho a agulha. E essa levou-o em direção de Carlos Sá, literalmente. A irmã falou-lhe que um atleta português, ainda desconhecido, tinha acabado uma ultramaratona no deserto e com um resultado notável. “Comecei a investigar e descobri que o próprio Carlos Sá estava a organizar uma prova, o Grand Trail da Serra de Arga, cuja primeira edição foi em 2011. Juntei um grupo de amigos e duas semanas depois de Munique estava a iniciar-me nos Trails. Inscrevemo-nos nos 20 quilómetros e fomos à aventura. Fomos dos últimos a chegar e o que mais me tocou foi que o Carlos Sá estava à nossa espera e entregou-nos pessoalmente as medalhas. Depois disso começaram a desmontar tudo. Éramos mesmo os últimos.”

Correr dá trabalho
Com tanta corrida e devido à interação do blogue com os leitores, José Guimarães, o Sedentário que se tornou Maratonista, começou a ser um nome conhecido na comunidade. De tal forma que foi um dos convidados a participar num evento de inauguração da ProRunner, uma loja inteiramente dedicada ao fenómeno da corrida e que abriu em 2012 em Lisboa. “Houve um treino de grupo para celebrar a abertura do espaço e formaram-se duas equipas, uma partia de Vila Nova de Gaia e a outra de Portimão, cada uma com 300 quilómetros para correr. Fui convidado a integrar esse treino e conheci muita gente nesse dia, incluindo o Nuno Barros, dono da empresa que abriu a ProRunner. Pouco tempo depois convidou-me a integrar a equipa para trabalhar na minha área, de marketing. Hoje sou um dos responsáveis da parte digital da empresa, as redes sociais, o site, projetos especiais, eventos. Dois anos e meio depois de estar desempregado voltava a trabalhar. Graças à corrida.”
Por tudo isto, e muito mais, este atleta não tem pudores em admitir. “Correr mudou a minha vida, sem dúvida. Fisicamente, sim, é verdade, mas principalmente porque é uma coisa que me preenche e isso foi o que me levou a querer partilhar tudo.” E onde estaria se não tivesse decidido correr dois quilómetros naquela manhã, em Carcavelos? “Provavelmente a comer uma sandes de torresmos, se calhar ainda pesaria 90 quilos, teria uma vida caótica e não estaria a trabalhar onde estou, de certeza.”

Rui Jorge Trombinhas
rui.trombinhas@ojogo.pt

 

J 6 Abr 2014

Esta entrevista foi publicada a 6 de abril de 2014 no suplemento Non Stop da revista J, publicada aos domingos, com jornal O Jogo

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