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Mário Fonseca. Pedalar em busca da liberdade
Publicado em 19.Nov.2014
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Começou a pedalar mais a sério já muito tarde, com 19 anos, mas a paixão pelas duas rodas sempre foi grande e só os estudos não o deixaram ir mais longe no BTT. “Quando entrei para a faculdade, depois de vários anos a candidatar-me, sem sucesso, tive de encostar a bicicleta. Estava numa universidade privada, tinha renda da casa e outras contas para pagar e não tinha forma de manter-me a competir em condições. E para ir ter maus resultados mais valia não ir.”

Gonçalo Villaverde / Global Imagens

Gonçalo Villaverde / Global Imagens

Este sempre foi o espírito de Mário Fonseca, hoje com 38 anos, relativamente à competição. Se é para fazer, é para fazer bem. Mas a vida não tem sido fácil para o ciclista residente em Évora. O curso de Design Industrial nunca lhe deu o emprego desejado e acabou por recorrer aos call-centers para conseguir dinheiro para pagar as contas, numa altura em que ainda vivia em Lisboa. Foi, no entanto, um obrigação de pouca dura. “Esse tipo de trabalho é muito desgastante em termos psicológicos e passado uns tempos acabei por me despedir. Desempregado, desmotivado e com muito tempo livre, acabei por voltar a olhar para a bicicleta.” Os trilhos de Monsanto, bem à porta de casa, eram uma atração, mas a forma física dos anos dourados do BTT já lá ia. “Tive de recomeçar do zero, praticamente. Pedalar 30 quilómetros era um sacrifício e, apesar de até então nunca ser adepto de grandes distâncias, acabei por me dedicar à estrada para fazer quilómetros. E como tinha tempo…”

Gonçalo Villaverde / Global Imagens

Gonçalo Villaverde / Global Imagens

A solidão também não ajudava. A namorada, estudante de Veterinária, vivia em Évora, e a relação funcionava apenas aos fins de semana. Desempregado e com prestação da casa para pagar, Mário decidiu rumar ao Alentejo e por lá se estabeleceu, mas com muitas dificuldades. “Pensei que estar desempregado em Lisboa ou em Évora seria a mesma coisa, mas não é. Aqui os empregos são zero, é muito difícil trabalhar.” O tempo livre era ocupado, inevitavelmente, em cima da bicicleta, e as voltas iam aumentando. “Como estamos relativamente perto de Espanha, comecei a colecionar fotos de placas de fronteira. E ia correndo as fronteiras todas e começavam a estar cada vez mais longe. E as voltas iam aumentando, 150, 200 quilómetros… Quando me sinto preso, em alguma coisa na vida, pedalo. A vida obriga-me a fazer certas coisas, mas depois provo que sou mais que aquilo, que sou livre de fazer o que quiser. Esta paixão pelas longas distâncias acaba por ser uma busca pela liberdade.”

Do Alentejo para a Irlanda

Estava feito o desenho do percurso do Mário Fonseca que encontrámos em Évora. Planear voltas longas… muito longas, faz parte da sua mente constantemente. “Fazer o Troia-Sagres, um passeio clássico de ciclismo, já não me chega. Depois faço o percurso para trás e acabo quase com 600 quilómetros.” Mas não é a única aventura. Já foi até desde Évora, Lisboa, até Sagres, até à Torre, na Serra da Estrela e mesmo até Bragança, tudo a pedalar sozinho. Tantos quilómetros juntos tornaram Mário numa referência do ciclismo amador em Portugal. No Strava, aplicação muito usada entre a comunidade e que permite seguir os feitos de muitos outros ciclistas, já venceu desafios de quilometragem mensal e são muitos os que o seguem através do Facebook. “Isso ajudou-me a recuperar a autoestima. Quando se está desempregado tanto tempo, isso deixa uma marca numa pessoa. Pensamos que não valemos nada, que ninguém nos quer. Mas eu tinha a bicicleta.”

Gonçalo Villaverde / Global Imagens

Gonçalo Villaverde / Global Imagens

O último desafio de Mário Fonseca travou-se na Irlanda, na Race Around Ireland, uma prova única, sem etapas, com cada ciclista a ter de percorrer os 2150 quilómetros em autonomia, apenas com a ajuda de uma equipa de apoio. “É um novo conceito de ultramaratonas de ciclismo, provas que estão a espalhar-se um pouco por todo o mundo. São 23 mil metros de subida acumulada e na ilha as estradas não são todas perfeitinhas. Temos muitas estradas estreitas onde mal cabe um carro, com muros de um lado e de outro, posso fazer uma curva e dar de caras com um rebanho de ovelhas.” Mário terminou a prova em 3º lugar da geral, com um tempo de 117h48m, ficando a mais de 16 horas do vencedor, o austríaco Eduard Fuchs. Mas havia mais objectivos a alcançar além da classificação geral.
“Esta foi uma prova de aprendizagem, e de qualificação, para a Race Across America, a prova de referência nisto das ultramaratonas de ciclismo. É uma prova de 4600 quilómetros, nos Estados Unidos, que liga os dois oceanos. Em 2015 queremos estar presentes, mas para conhecer a prova e traçar uma estratégia para em 2016, se conseguirmos voltar, lutarmos pelo pódio”, sublinha o treinador Pedro Freire, que tem investido bastante no potencial do amigo e atleta. Para Mário, todo este projeto parece uma oportunidade para dar uma volta a uma vida que não tem sido fácil e até já tem o exemplo a seguir. “O Carlos Sá também estava desempregado e começou a fazer ultramaratonas a correr e hoje é esse o trabalho dele. Tem uma empresa, é patrocinado, ajuda a desenvolver produtos. Se eu tiver sucesso nestas provas, talvez olhem para mim de outra forma, até porque tenho imensas ideias. Tenho o curso de Design Industrial e nasci para desenvolver produtos. Fabrico a minha roupa, tenho ideias para inúmeras coisas, desde bolsas até bicicletas. Quero criar a minha marca, mas é preciso investimento e aliados nessa área, que não só me apoiem como aproveitem a minha capacidade criativa e o meu conhecimento desta área do ciclismo. E tenho mais que motivação. Dizem-me muitas vezes que é impossível fazer algo, mas eu acredito… e faço!”

Rui Jorge Trombinhas
rui.trombinhas@ojogo.pt

Esta reportagem foi publicada, na íntegra, na edição 415, de 17 de agosto, da revista J. Aos domingos, com o jornal O Jogo

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