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Armando Teixeira, campeão à portuguesa
Publicado em 17.Dec.2014
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Treina à porta de casa, ao nível do mar, em conjugação com o trabalho e a vida familiar, mas coleciona sucessos nas montanhas mais altas.

Rui Oliveira / Global Imagens

Rui Oliveira / Global Imagens

A história de Armando Teixeira, um dos melhores corredores de Ultra Trail nacionais, é comum à de tantos outros que sentiram a necessidade de combater a rotina e o sedentarismo através da prática desportiva. “O trail surgiu em simultâneo com o atletismo, em 2008, pela necessidade de ter um estilo de vida diferente, para deixar a vida sedentária e o stress do dia-a-dia, de uma vida profissional desgastante”, recorda este técnico de laboratório de alta tensão da EFACEC de 38 anos. “Temos uma associação desportiva na empresa e convidaram-me para fazer algumas provas”, acrescenta, referindo que até então jogava, de forma esporádica, futebol de salão e ténis. Após algumas corridas de estrada, o Ultra Trail Serra da Freita foi o detonador da descoberta do contacto com a natureza e do ambiente mais descontraído do trail por comparação ao atletismo tradicional. “Conseguia-se criar amizades com facilidade, devido ao convívio antes e após as provas”.

Seis anos depois e com várias das mais importantes provas nacionais no palmarés – Trilho dos Abutres, Ultra Trail Aldeias do Xisto, Ultra Trail da Madeira – e participações nas mais duras corridas internacionais (o Ultra Trail do Mont Blanc à cabeça), Armando Teixeira lembra os dez quilos perdidos desde que se iniciou com regularidade e a mudança de hábitos alimentares. Mas lembra, sobretudo, aquilo que lhe despertou a paixão por esta modalidade. “Houve um episódio na Freita que me tocou: eu tinha acabado o trail de 13 quilómetros e pouco depois chegaram o primeiro e o segundo dos 50 quilómetros; eu tinha sofrido muito e de repente vejo chegar aqueles atletas que tinham feito sete horas de corrida e vinham muito desgastados mas em cujas caras se via o prazer por aquilo que tinham feito. E os atletas que iam chegando mais tarde eram os que traziam um ar de maior satisfação. Vê-los a eles e às famílias à espera deles foi algo muito emocional. Isso foi um estímulo e decidi que no ano seguinte faria o Ultra Trail”.

Rui Oliveira / Global Imagens

A decisão de apostar em distâncias mais longas foi importante na carreira de Armando Teixeira mas o verdadeiro clique surgiu quando começou a treinar de forma orientada. “Inicialmente tirava da internet planos de treino generalizados, até porque sempre fui um autodidata, mas em 2011 comecei a ter treino orientado com o professor Paulo Pires. Já sabia que tinha uma resistência acima da média, mas com o treino orientado conseguiu-se potenciar ainda mais”, sublinha.

O horários dos treinos (e o próprio equilíbrio familiar) varia em função dos turnos de trabalho e também do objetivo diário – “Treino sete dias por semana. De segunda e sexta-feira, faço entre uma hora a hora e meia de corrida, treino de flexibilidade, musculação, bicicleta ou natação. Ao fim-de-semana a distância e o tempo aumentam – entre quatro a cinco horas. Por vezes, aproveito para ir à Serra da Estrela e treinar acima dos mil metros”, conta.

As limitações do relevo nacional, quando comparado com o dos países onde tem competido, não se refletem, no entanto, nos desempenhos deste residente na Maia: em julho foi segundo na duríssima “Ronda dels Cims”, uma prova de 170 quilómetros e 26 mil metros de desnível acumulado; em setembro ficou em 19º no “Tor de Geants”, em Itália., uma prova com 330 quilómetros e com um desnível acumulado de… 50 mil metros, o dobro da prova de Andorra. “Isto é algo que me dá prazer, é uma paixão. E como quero ter longevidade, o treino orientado permite-me não queimar etapas. Para mim, a paixão pela natureza e pela montanha é uma filosofia de vida, portanto irei à procura de desafios novos”, promete.

Rui Oliveira / Global Imagens

“Carlos Sá é uma referência e um amigo”

“Fomos nós que começámos a dar visibilidade ao trail. É uma referência e um amigo, treinamos juntos, fazemos confidências, mesmo sobre estratégias para provas e sei que também nutre um grande respeito por mim”, diz Armando Teixeira sobre Carlos Sá, a face mais mediática da modalidade em Portugal. “Aconselhamo-nos um com o outro e temos um projeto futuro de participação em provas de duplas”, revela.

Massificação do trail. Os lados bom e mau

Para Armando Teixeira, há aspetos positivos e negativos na recente explosão do trail: “O lado bom é as pessoas praticarem desporto e olharem para a Natureza com respeito; o mau, como sempre acontece com a massificação, é a competição sobrepor-se ao espírito de companheirismo”. Este lamento refere-se a Portugal, pois além-fronteiras é algo que se perdeu há muito e que ele experimentou na pele. “No Monte Branco, em 2011, dei uma queda e os outros atletas passaram todos por cima de mim sem perguntarem se estava bem”, conta. Esta massificação proporciona, também, a possibilidade de se obterem mais e melhores patrocínios, com Armando Teixeira a acrescentar que no estrangeiro “já há transferências como no futebol, marcas irem buscar atletas a outras concorrentes”.

“Senti a vida em perigo”

Com quatro participações no Ultra Trail do Mont Blanc, a “meca” da modalidade a nível europeu, foi lá que Armando Teixeira viveu o momento mais difícil numa competição. “Foi em 2012, devido às temperaturas negativas. Tive de vestir tudo o que levava na mochila… Estava quase a entrar em hipotermia e senti que tinha a vida em perigo”, lembra. Chegou ao local de partida dois dias antes da prova, “devido ao trabalho”. Sem qualquer adaptação, o relato impressiona: “Durante a noite, a temperatura chegou a ser de oito graus, perdi o controlo dos movimentos. Mas depois o trilho começou a baixar a cota e comecei a recuperar porque a temperatura subiu. Não abandonei porque no abastecimento estava o meu treinador que me motivo. Certificou-se que estava tudo bem comigo e sabíamos que dali em diante as condições meteorológicas iam melhorar”.

João Araújo

Esta reportagem foi publicada, na íntegra, na edição 416, de 24 de agosto, da revista J. Aos domingos, com o jornal O Jogo

Esta reportagem foi publicada, na íntegra, na edição 416, de 24 de agosto, da revista J. Aos domingos, com o jornal O Jogo

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