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Alex Dowsett: “Se não fosse a hemofilia não seria ciclista”
Publicado em 02.Jan.2015

Já foi colega de Rui Costa na Movistar e é um dos mais promissores jovens ciclistas do pelotão internacional. Mas Alex Dowsett, de 26 anos, é também um doente hemofílico, condição que o trouxe a Portugal para explicar a todos que a doença não deve ser um entrave para se atingirem patamares bem altos

Foto: Paulo Alexandrino / Global Imagens

Quando nasceu em Maldon, condado de Essex, Inglaterra, há 26 anos, Alex Dowsett tinha tudo para ser uma criança como todas as outras. Mas 18 meses depois, a história mudou. Desde muito cedo que a mãe notava que o bebé tinha muitas nódoas negras. Bastava pegar-lhe ao colo para ficar com marcas na pele. Os médicos desvalorizavam o assunto, mas a insistência dos pais levou-os a fazerem testes sanguíneos. Por coincidência, foi à saída da clínica onde fez os testes que aconteceu algo que mudaria o panorama. “Já na rua tropecei, caí e cortei o lábio. À noite os meus pais deram comigo, na cama, a dormir numa poça de sangue e levaram-me de imediato ao hospital. Seria a primeira vez que um médico lhes falaria em hemofilia.” Os testes sanguíneos confirmariam depois o diagnóstico. Alex sofria de hemofilia tipo A Grave, o que quer dizer o sangue não coagula normalmente. “Sem a medicação adequada não coagula de todo. A situação é tão grave que se pode acabar numa cadeira de rodas.”
O cenário é pintado pelo ciclista inglês da Movistar, que esteve em Portugal para participar no 1.º Congresso Nacional de Hemofilia, onde explicou como contornou o destino. Em entrevista ao NonStop, revelou que a bicicleta estava muito longe do seu horizonte desportivo. “Não era suposto ser ciclista. Quando era pequeno, e depois do diagnóstico, disseram aos meus pais que o melhor desporto que podia praticar seria a natação. Um doente de hemofilia deve estar em forma, ser forte e saudável, mas não podia fazer os desportos típicos da escola, o futebol e o râguebi. Eram perigosos para mim, devido ao contacto físico. Nunca quis ser ciclista, queria ser piloto de automóveis. Era o que o meu pai fazia e adoro carros, tenho gasolina nas minhas veias. Mas sabia que queria ser bom em alguma coisa. Acabei por descobrir que era bom a pedalar. É curioso… se não fosse a hemofilia nunca teria experimentado o ciclismo.”

Dar a cara. Informar para tranquilizar

Se evitar o contacto físico, em desportos como o râguebi ou o futebol é importante, o ciclismo não é menos perigoso, ainda mais quando se recordam quedas no pelotão e as altas velocidades atingidas em cima da bicicleta. “Sim, é verdade. Na Volta à Suíça, este ano, cheguei a atingir os 118 km/h. Tem riscos, claro. Quando disse aos médicos que tinha decidido ser ciclista, eles responderam que preferiam que jogasse xadrez ou tocasse algum instrumento musical. Mas se era isso que queria fazer, que o fizesse. E hoje, profissional há cinco anos e com muitos mais como ciclista amador, nunca senti que a doença me afetasse.”

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Foi essa a mensagem que Alex promoveu na visita a Portugal, mas também a que divulga no dia a dia. Criou a Fundação Little Bleeders que visa apoiar famílias que sofram com o diagnóstico de hemofilia numa criança. Algo que ele diz equivaler a uma “bomba.” “O diagnóstico envolve a família. É como uma explosão. A pessoa mais afetada é, claro, o doente, mas depois há os pais, irmãos, avós. E na escola os professores têm de saber, não é algo que se possa esconder. O que eu faço mostra aos jovens que podem fazer uma vida normal, uma vida fantástica, que não devem deixar que a doença os pare, os retraia de fazer algo. Não é como antigamente. A medicação atual e o conhecimento que se tem agora até promovem o desporto”, sublinha o ciclista profissional, recordando um aspeto fundamental: “Desde que tome a medicação, sou como qualquer outro”.
No início, recorda, as coisas não foram fáceis. “Os meus pais sempre disseram que houve uma altura negra, com tudo o que os médicos previram. De tudo o que disseram que iria acontecer, talvez só 30% tenha, de facto, acontecido. Mas acho que é assim que tem de ser – transmitem-nos o pior cenário e depois tudo o que acontecer de bom… é bom. Os meus pais nunca tinham ouvido falar da doença, tiraram um curso rápido”, diz. Com a fundação que criou, Alex Dowsett pretende “informar os pais das crianças com esta doença do que vão encontrar”. “Sim, vai haver dias maus, mas há esperança, há oportunidades. O que fazemos é receber e-mails de pais com dúvidas e é a minha mãe que responde a esses pais pessoalmente. Passam pelas experiências que os meus pais já passaram há 20 anos. A minha mãe pode dar conselhos e esperança. Sentimos, pelos e-mails, que estão assustados, não sabem o que fazer. É por isso que é importante dar a minha imagem por esta causa”. O britânico admite que a dada altura ponderou esconder a doença, mas depois acabou por tomar “uma decisão fácil”: “Posso fazer muitas coisas boas com esta doença.”

Foto: Paulo Alexandrino / Global Imagens

Medicação não é problema no ciclismo

Nas equipas por onde Alex passou a preocupação com a condição do especialista no contrarrelógio surgiu naturalmente, mas ele depressa tranquilizou todos. “Se puder continuar, após uma queda, continuo. Provavelmente, nesse dia terei, depois, de reforçar os medicamentos. Se for muito grave, terei de ir ao hospital e os médicos têm de ser avisados de que tenho hemofilia. Desde que tome os medicamentos sou igual a todos os outros. Se cair, talvez haja um pouco mais de pânico, mas 99% das vezes não há problema.”
O britânico tem de tomar a medicação diariamente, o que no mundo do ciclismo pode chocar com a rigorosa política antidoping, mas também aí Dowsett não tem problemas. “No ciclismo há restrições grandes contra o uso de agulhas. Mas a minha medicação tem de ser administrada por via intravenosa, pelo que não tenho outra hipótese. A UCI foi informada da minha condição e está tudo bem. O meu tratamento não melhora a performance. Não é como no caso dos asmáticos que têm de ter documentação especial porque o que eles tomam é banido para qualquer outro atleta, porque é um medicamento que melhora a performance. Os meus medicamentos podem salvar-me a vida, mas não me fazem andar mais depressa em cima da bicicleta.”

O amigo Rui Costa e o Tour como objectivo

Profissional desde 2010, Alex já passou por grandes equipas do World Tour, como a Trek/Livestrong, a Sky e a Movistar, equipa pela qual assinou contrato por mais três temporadas. É, e já foi, colega de alguns dos melhores ciclistas do mundo, com Rui Costa pelo meio. “Tem sido uma viagem fantástica. O Rui é um grande amigo, quando estava na Movistar era mesmo um dos meus melhores companheiros, isto apesar de eu não falar português e ele falar pouco inglês. Fiquei triste de o ver sair para a Lampre, gostei de correr com ele. É um grande amigo fora da bicicleta e muito feroz em cima dela. Prova disso foi o campeonato do mundo que conquistou em 2013. Não foi uma surpresa para mim. Aquele Mundial só podia ter sido ganho por um tipo duro.”
Duro sim, mas ao nível dos melhores? “Sim, por que não? Precisa de dois anos para chegar ao topo. Tem as qualidades necessárias. O ano que passou foi difícil porque é sempre difícil correr com a camisola do arco-íris. O ano de 2015 será em grande para ele… e para mim também!”
Amigo de Nélson Oliveira, que partilha com o inglês a especialidade do contrarrelógio, Alex aponta ao Tour como o grande objetivo para o próximo ano, uma prova que já esteve prevista em 2014. “Era suposto ter participado, mas fiquei doente a duas semanas da prova e não estava em condições. Fiquei desiludido, preparei-me muito para essa prova e acabei por ficar de fora. É a vida de um ciclista. Quero estar na próxima edição, mas quero estar bem, não quero apenas ir para ver as vistas. Quero ajudar o Nairo Quintana, que deverá ser o nosso líder. E mostrar o meu valor no contrarrelógio, tentar estar ao nível do Bradley Wig­gins e do Tony Martin, os dois gigantes nesta disciplina.”

Rui Jorge Trombinhas
rui.trombinhas@ojogo.pt

Esta reportagem foi publicada, na íntegra, na edição 431, de 7 de dezembro, da revista J. Aos domingos, com o jornal O Jogo

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