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Ester Alves. Entre o laboratório e os trilhos
Publicado em 11.Feb.2015
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Possui um percurso desportivo notável, que começou no remo, passou pelo ciclismo e agora tem na corrida de montanha o principal foco. Em 2014 fez três provas do Circuito Mundial de Ultra Trail, tendo sido a primeira portuguesa a terminar o Ultra Trail du Mont Blanc, a “Meca” da modalidade. Formada em Biologia, consegue conciliar treinos e provas com a tese de doutoramento

Foto: Fernando Pereira / Global Imagens

Ester Alves é uma força da natureza. E quem a vê, de bata branca, no laboratório da Faculdade de Medicina da Universidade do Porto, onde trabalha na tese de doutoramento sobre o papel da adrenalina na aprendizagem, dificilmente imaginaria estar perante a melhor atleta de trail running nacional e uma das melhores da Europa. Aliás, a maioria das pessoas que com ela convive nas instalações situadas no interior do Centro Hospitalar São João, no Porto, só recentemente, fruto do crescente mediatismo da corrida e dos resumos televisivos das muitas vitórias por ela conquistada, começou a aperceber-se de quem é realmente a investigadora que, diariamente, se desloca de bicicleta para o local de trabalho. E isto, já depois de um treino logo a começar o dia.
“Normalmente faço um treino de corrida entre as seis e as oito da manhã e chego à Faculdade pelas nove/dez horas”, diz Ester Alves sobre um quotidiano cujos dias mais longos podem implicar uma permanência de nove horas no laboratório. Por vezes aproveita as instalações da vizinha Faculdade de Desporto para mais uma corridinha à hora de almoço e quando tem uma manhã livre aproveita para um treino longo de bicicleta. As duas rodas foram, de resto, a anterior etapa da atleta que em 2014 venceu o UT Aldeias do Xisto, o Trail dos Abutres, o Gerês Trail Adventure, o Ultra Skymarathon da Madeira, o Grande Trail Serra d’Arga e foi oitava no Trans GranCanaria e sétima do Lavaredo Ultra Trail, as duas outras etapas do Cirtcuito Mundial que disputou, além da do Monte Branco, em que foi oitava da geral feminina.

Primeiro o remo, depois o ciclismo

Tudo começou, no entanto, bem longe das encostas das montanhas que agora percorre em passo acelerado. “Comecei no desporto federado em 2002, no remo. Tinha 22 anos, estava a terminar a faculdade e cativou-me ver os jovens a correr”, lembra. Vivia em Vila do Conde, representava o Fluvial Vilacondense e durante quatro anos venceu várias provas e integrou regularmente a seleção nacional, chegando a disputar um campeonato do mundo. “Um dia, ia para o treino de remo de bicicleta quando um carro de uma equipa de ciclismo [Spol/Caixa Nova] parou e perguntaram-me se queria fazer parte da equipa. Fiz a primeira prova e gostei, apesar de ter caído”, conta. O hábito de treinar muitas horas facilitou a mudança de modalidade, em 2008, começou uma nova carreira, igualmente recheada de sucessos, em ambos os lados da fronteira. “Por vezes fazia provas na Galiza e vinha a pedalar para Portugal…”

Foto: Fernando Pereira / Global Imagens

Dois títulos nacionais de estrada e uma presença nos Mundiais de ciclismo em Mendrisio (Itália), em 2009 – a primeira de uma portuguesa depois de Ana Barros na década de 1990 -, foram os momentos mais destacados de inúmeras presenças nos mais diversos pódios. E a melhor sequência ao impulso dado pelo pai, antigo jogador de hóquei em patins. “Foi ele que me incutiu o hábito do desporto”, diz. Ainda correu pela Lointek, uma equipa do País Basco, por quem disputou corridas da Taça do Mundo e de Espanha, mas se já era difícil conciliar as longas viagens, todos os fins de semana, com a atividade de professora no Porto – “Ia e vinha de Vila do Conde a pedalar para treinar” -, o momento em que foi admitida a doutoramento marcou o fim dessa ligação à formação espanhola.
Regressou a Portugal para correr pelo CDC Navais, da vizinha Póvoa de Varzim, mas um feliz acaso, há dois anos, daria origem à paixão atual: “Um amigo meu, que é médico no Hospital de Santo António, convidou-me para fazer um treino de trail em Valongo e foi vício à primeira vista”, confessa Ester Alves. “Nunca deixei o ciclismo completamente, mas passou a ser um complemento. Serve para recuperar após as provas, para poupar as articulações e ganhar a massa muscular perdida em corridas longas”, explica. E se, quando começou nas corridas de montanha, o objetivo era “contornar os obstáculos que iam aparecendo” e chegar ao fim, atualmente as coisas são bem diferente: “Isso foi há dois anos, agora o objetivo é ganhar”.

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“Somos médicos de nós próprios”
Ester reconhece que a formação em Biologia é uma vantagem em competição. “Ajuda imenso. Penso muito no funcionamento do organismo durante as provas. Para fazer um desporto de endurance, temos muitas vezes de ser médicos de nós próprios”. Quando competir significa correr mais de cem quilómetros em altitudes muitas vezes acima dos dois mil metros, percebe-se a importância desse conhecimento…

“Comer de 20 em 20 minutos”
No dia a dia, Ester Alves segue uma dieta de atleta – alimentação à base de leguminosas, fruta, proteínas e evita os hidratos de carbono complexos, como massas e arroz, exceto nos dois dias anteriores às provas, e uma boa hidratação – e admite que “se passa muita fome”. Em altitude, porém, tudo muda. “Tem de se comer de 20 em 20 minutos, mesmo que não se tenha fome ou nos sintamos nauseados”.

“Já esperava que o trail virasse moda”
Primeiro foi a explosão da corrida, depois da corrida de montanha. Para Ester Alves, isso não foi uma surpresa. “Já esperava que acontecesse, pois a corrida em cidade é agressiva, o alcatrão não é tão gratificante como a montanha. “Olhar para o vizinho do lado e medir forças não é agradável, a montanha é outro desafio”, justifica, com indisfarçável paixão.

“Três provas custam três mil euros”
“Fazer três provas do Circuito Mundial custa três mil euros, apenas em deslocação e inscrições, ou seja, sem incluir o alojamento”. Ester Alves tem pequenos patrocínios que vai conseguindo gerir de forma a financiar o calendário competitivo que em 2015 deverá contemplar uma maior aposta internacional. Além das três etapas que fez este ano – Monte Branco, Lavaredo e GranCanaria -, planeia fazer mais duas, em Hong Kong e País Basco.

João Araújo

Esta reportagem foi publicada, na íntegra, na edição 425, de 26 de outubro, da revista J. Aos domingos, com o jornal O Jogo

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